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Ponte de Lima ► Feiras Novas



CARTAZ FEIRAS NOVAS 2011
10 - 11 - 12 Setembro 2011

Clique AQUI para mais informações sobre as Feiras Novas 2011!!



FEIRAS NOVAS

« Após algumas investigações realizadas nos arquivos históricos municipal e da extinta Irmandade do Divino Espírito Santo, erecta na Igreja Matriz, hoje depositado no Museu dos Terceiros, além de bibliografia temática escrita, foi possível estabelecer alguns dados mais precisos sobre a origem das Festas do Concelho, assunto mal aflorado por historiógrafos limianos.

Assim, as Festas do Concelho de Ponte de Lima as tradicionais "FEIRAS NOVAS" foram criadas pelo rei D. Pedro IV por Provisão de 5 de Maio de 1826.

Também chamadas de Festas de Nossa Senhora das Dores, vulgarizou-se a designação popular de Feiras Novas, para as distinguir das feiras quinzenais, às segundas, as mais antigas de Portugal, já referenciadas no foral da rainha D. Teresa concedido a Ponte de Lima em 4 de Março de 1125.

As feiras velhas têm a duração de um dia apenas, e as Feiras Novas de quatro, festivos, marcados no documento régio para 19, 20 e 21 de Setembro de cada ano "para dar maior solenidade à festa da Dores", imagem da Virgem venerada em altar próprio na Igreja Matriz, com bela talha barroca de Miguel Coelho, de Barcelos, executada em 1729.

Não sabemos quando foi introduzida a Festa de N.ª Sr.ª das Dores entre nós, mas que já se realizava em 1792, disso temos notícia por uma obra do Padre António Pereira, da Congregação do Oratório, de Braga que expandiu o culto no Alto Minho, nomeadamente em Ponte de Lima e Monção.

As Feiras Novas passaram a realizar-se no terceiro fim de semana de Setembro, o Sábado, Domingo e Segunda feira, há cerca de cinquenta anos, por acordo celebrado entre a Câmara Municipal e o então Grémio do Comércio de Ponte de Lima.

Da história das Feiras Novas, há ainda a registar que já se realizaram no mês de Julho.

Isso aconteceu no ano de1839 nos dias 24,25 e 26 desse mês, mas no ano seguinte foram novamente transferidas para o mês de Setembro, do fecho do ciclo festivo regional.

Com números centenários como a Feira de gado, a Corrida de garranos, e como acima dissemos o bicentenário da festa à Virgem Padroeira (1792), são a alegria de todos no mês de Setembro de cada ano.»

A. Tito de Morais, "Pequena história das Feiras Novas", 1984.


Fonte: Centro de Recursos de Ponte de Lima


« Pode dizer-se que, com as Feiras Novas de Ponte de Lima, termina o ciclo de Romarias do Alto Minho, esta sedutora Vila, pérola do Minho, terra de Diogo Bernardes e António Feijó, que no lendário Lima e nessa Ribeira de encantos "terra mais linda não encontrei".


FEIRAS NOVAS, porquê?

Desde 1125 que existem as tradicionais feiras quinzenais de Ponte de Lima, designadas feiras velhas, às segundas, as mais antigas do País, já mencionadas no foral de D.ª Teresa, confirmadas por D. Dinis em 1212, passando a feira "real" no tempo do rei Fernando.

Em 1826 tendo como fundamento a existência de três dias de feira para comércio e maior veneração da Padroeira (a imagem de Nª Sr.ª das Dores) D. Pedro IV autorizou que fossem criadas as Feiras Novas, em oposição às velhas, nos três dias de festa, normalmente, no terceiro fim de semana do mês de Setembro.

No corrente ano as tradicionais Feiras Novas não pedem meças às dos anos anteriores.

A Vila com as suas vestes mais galantes - a sua beleza natural a arquitectónica, glória dos limianos - prepara-se para receber milhares de visitantes.

São as tradicionais Feiras Francas com especial destaque para a tradicional Feira das Trocas, no domingo, dia 16.

O Cortejo Etnográfico e Artesanal - interessante desfile das gentes da Ribeira Lima, numa demonstração das suas inúmeras actividades e no qual se farão representar todas as freguesias do concelho, no sábado, dia 15, pelas 17.00 horas.

E o Cortejo Histórico, no domingo dia 16, pelas 17.00 horas, formado por quadros alusivos à História de Ponte de Lima.

O Festival Folclórico que não pode faltar, o típico Fogo do Meio, para terminar no dia 17, segunda-feira, com a Majestosa Procissão de N.ª Sr.ª. das Dores.

Mas as Feiras Novas são mais que romaria: são festa, feira, estúrdia e arraial.

Não precisamos de nos socorrer da narrativa maravilhosa do Conde d' Aurora porque elas aí estão, como outrora, a ser o grande centro das "trocas", naquele areal extenso, nas ruas locais, na Praça de Camões: a feira do gado, dos linhos e atoalhados, dos barros de Barcelos e Alvarães, de Prado e da Vista Alegre; o mercado das ferragens, da pregaria e das tacholas; das alfaias agrícolas, dos pipos e aduelas; dos vendedores ambulantes e aí, aparece de tudo: o calçado e o pronto a vestir, os cobertores e os relógios, as "bolachas" e a "cassette", o "ratinho" e as "panelas" e aquela voz roufenha e vernácula a dizer: "Eu sou o João de Venade".

Arraial, e aqui há que deixar a Avenida e mergulhar na areia, passar pelas tendas e, nas filas paralelas da multidão, forçar a custo a ida aos "carrosséis", ao "poço da morte", às "cadeirinhas", aos "carrinhos", ao "palácio do riso", ao "comboio fantasma", ao circo "Mexicano", aos "comes e bebes", aos "matraquilhos".

Os tascos ao ar livre também, não faltam.

É a orgia de Baco em tendas escarranchadas, abertas ao sol do meio-dia; são os pipos bojudos a refrescar à sombra do verde loureiro, o bacalhau frito, a sardinha assada a boroa de milho, a malga do verdasco.

Mas chegou a hora das "Filarmónicas".

O sino da Matriz deu o toque.

São as dez da noite uma noite cálida com a lua espelhada no rio.

É o principio do "arraial".

A "banda" da Festa, no palanque vistoso, e a preceito, arranca com a "1812", e os ecos da"Marselhesa" perdem-se pelos campos de "Além-da-ponte"; a outra, rival e não menos conceituada, bota para os apreciadores e são tantos (ainda bem) a "Tanhauser"; depois, o contra ataque e saem os acordes da "La Gazza Ladra".

E a multidão arrasa, com palmas, maestro e executantes.

- Maravilha, melhor que nos Arcos.

Outros, com o ouvido mais - aguçado: "bom lábio aquele solo de trompete" e recorda a filarmónica que esteve no Senhor do Socorro.

E todos se dirigem para o outro coreto!

Uns esperam pelos primeiros compassos; outros mais reguilas aguardam que o papel com o nome da "peça" escolhida seja colocado no escaparate do palanque:

- Boa - dizem uns.

- Já não tem folgo - resmungam outros!

Os músicos da outra "banda" esperam de ouvido à "escuita"!

E saem os primeiros andamentos.

Há um misto de espanto, quase de incredibilidade nos "entendidos".

Por isso, já esquecido do último bouquet que iluminou os ares e fez do Lethes o rio do esquecimento, me descontraio por aquelas ruas da Vila, velhinha de séculos, já liberto do "stress" e dos forasteiros que me acotovelaram e me pisaram com o frenesim de assistirem ao espectáculo, aos cortejos, aos ranchos, à procissão e, contentes, em correria, ainda (até onde, talvez até à próxima discoteca?) vão perder o "segredo" das feiras Novas, o seu encanto, a sua história, o seu deslumbramento.

Fico-me, já liberto de intrusos, nesta comunidade limiana que me seduz e me traz, noite adentro, a nostalgia dos rumores da Ribeira Lima: de jograis, trovadores e poetas, serões e desfolhadas, castelos e peças, de cantigas de amigos e de amor, de escárnio e mal dizer!

É assim o Povo, pagador de promessas, folgazão e libertino.

Fico-me com o Cachadinha, o Delfim, o Caçador, o Rochinha e o Marinho, ao som das concertinas e das cantigas ao desafio, nas primeiras horas largas e sem tempo, naquelas "tasquinhas" de dentro da Vila, ali, a reviver e a comemorar lojas e moradias de quinhentos, com a Matriz a servir de fundo ao vira, à chula e ao malhão, ao verdasco e aos petiscos, da "Pensão Morais", do "Cem por Cento", do "Lampreia", do "Picapau" e do "Escondidinho".

Noite fora, a alegria não cai.

Os grupos percorrem a Vila.

Confraternizam fidalgos de solar e jacobinos, as castrejas e as meninas de Ponte, "jeans" e saias avergastadas, "descamisadas" e "engravatados", o senhor Doutor e a moçoila da Correlhã.

Ninguém pergunte se sabe dançar.

E o grupo cresce em redor como que numa clara alusão ao nosso espírito gregário, e uma força anímica, feita de instinto e energia telúrica, faz balancear os corpos, o floreado dos pés, o entrelaçar dos braços, nas voltas do vira, o pedido de um beijo, um segredo de conversado!, o ciúme dos olhos pretos que a "feira das trocas" trocou mesmo.

Mas já as tendas do rio e do areal e da Alameda de S. João também se mexem!

É o Cachadinha!

E o Félix e a sua concertina mágica, ainda recordada da recente visita aos "Brasis" e às Américas.

Horas mortas da noite limiana, quentes neste peregrinar de Feiras Novas!

Começávamos no "Sarameleiro".

Depois o "Petiscas" e a "Catrina".

Sempre a infusa do verde a refrescar os pés doridos e as goelas ressequidas e os "rojões" quentes, as belouras e as farinhotas, manhã frouxa no meio do vira de oito, da serrinha, do vira velho, da caninha verde da praça!

Depois, já mais tarde era o Augusto.

Quanta saudade!

E passava, então, a velha ponte medieval, a pé, liberto de invejosidades e de tantas noites mal dormidas, a pensar na Capela do Anjo da Guarda e no velho souto da forca onde morreu um homem por roubar um galo!

E o galo, milagre, morto, veio cantar a provar a inocência do condenado!

Depois, a velha ponte romana e a igreja de Santo António da Torre Velha

A animação não era menor, além da ponte!

Abanquei, como bom descendente da Galécia, na venda da "Lia".

O Malheiro acompanhou-me, com chieira e estaleca, nesta noite de maré alta.

Contou-me histórias lindas do seu amor à "Lia" (não é um nome de princesa?) e que teimou sempre em não casar! 50 anos namoradores agora já murchos de tanto noivar.

Quedei-me com o grupo de gente moça que esperava (até quando?), pela "carreira" até às Argas de S. Lourenço.

E dancei com elas no meio de pipos e de grades de cerveja, cestas do pão, restos de farnéis e avós ensonadas.

O Félix, em palanque organizado a preceito, no canto da loja, bem arrimado a um canjorão de tinto (nunca bebe branco!) arrancou com os foles e as palhetas gastas, a última chula.

Já não tocava, era a concertina que, na magia de tantos arraiais fazia a estúrdia.

Num espaço mais que exíguo, quase um corredor, rapazes e raparigas alinharam-se!

Primeiro, um passo à frente.

Outro, atrás.

Depois, primeiro os homens, depois as mulheres foram ao meio.

E no canto da "tasca" mesmo junto à "Lia" que fritava as últimas pataniscas, à voz do "mandador", os pares enlaçavam-se.

Era o "Inferno"!

Há misturas de sons de flautas com clarinetes e trombones; saxos e trompetes; pratos e bombos já cansados; mas todos, todos terminam a tempo com uma pancadaria infernal.

E de novo a multidão arranca em aplausos; maestro e músicos agradecem com vénias!

Empatados!

Depois, são as rapsódias.

Mas aí já não é o despique das ditas "clássicas", das que definem o valor e a escolha para o próximo ano.

É meia-noite!

Estraleja o foguetório e as lágrimas, as balonas e as girândolas enchem o céu do sonho das estrelas.

E, de novo, lá vem a agulha do contraste, a subtileza do chiste, a certeza do comentário feito de muitos arraiais, olhos no ar a contar cada foguete, cada lágrima, cada cor, o barulho dos morteiros.

E o ajuste está feito verrinoso, sarcaz:

- Melhor que n’Agonia!

Festa de participação, de uma religiosidade intensa, revivida, ano após ano, numa mística peculiarmente minhota, as Feiras Novas, são uma mostra colectiva de como em pleno século XX e já no dealbar no séc. XXI, uma comunidade ainda sabe perpetuar um ritual que mesmo perseguido pelas novas tecnologias, mantém um cunho de autenticidade difícil de encontrar noutras Feiras/Festas e Romarias, inclusive do Alto Minho, em que, praticamente, as festas de participação são nulas, transformando-se rapidamente em festas de representação com as comunidades a viverem as suas "romarias" mais como espectadores, num espectáculo a que aderem e até se esforçam mas que não deixa de ser uma revivescência para cumprir um programa ou uma promessa, contrato para turista ver.

Por isso mesmo, me confundo com aquela multidão no meio da poeira, do barulho, da algazarra, da cor, de luz e de som; me junto ao "cigano" que vende "Lacoste"; às tourinhas que já cangam; aos bácoros, lavadinhos, da última ninhada; às moçoilas que de Arcozelo trouxeram a sua cesta, o seu "farnelzinho", com a meia dúzia de ovos, a galinha preta, o garnizé, um quarto de feijão, um punhado de fruta; aos garranos que no seu "travadinho"fazem léguas de enfiada e até corridas no seu "trote" gracioso e brilhante; ao "bricabraque das barraquinhas da Avenida dos Plátanos e da Senhora da Guia.

E só ficaram os olhos e os lenços, e o colorido das saias vermelhas na alegria dos corpos: Ó vai meia, ó vai uma, ó vai duas.

E marcou, de novo: Ó meia lua; ó uma cheia.

Chegou a "carreira"!

Eram bem as sete da manhã!

A Vila era um esquecer de gestos e vozes, de sons de concertinas e cantigas ao desafio de uma vida de taleigas e angústias, do "stress" do quotidiano!

Na neblina da manhã, sinos de bronze ecoaram pela Praça de Camões, pela Avenida dos Plátanos, pela Senhora da Guia, por arcos, grinaldas e festões, pelas tendas do rio e do areal e correram Ribeira acima, por encostas e vales, por torres e solares, vinhedos, leiras e hortas, na esperança do dia que, de novo, vai nascer!

Eu esqueci-me do tempo neste regresso atávico e cíclico que, nas Feiras Novas, faço à Natureza Mãe neste mítico de regresso às origens.

Até p'ró ano!!»

Texto do Dr. Francisco Sampaio,
Presidente da Região de Turismo do Alto Minho (1989)

Fonte: Centro de Recursos de Ponte de Lima